O design é fundamental para a diferenciação de marcas de moda
Por Ana Wambier
“Fiz uma viagem à Disney recentemente e uma coisa me chocou muito: eles estão fazendo vários tipos diferentes de Mickey, uns com cores vibrantes, outros com roupas alteradas, outros transfigurados. Meu Deus! Ninguém respeita mais nada nessa vida, nem o Mickey!”, disse num tom irônico, em certo ponto de sua apresentação, Ricardo Leite, o sócio-diretor de criação da Crama Design Estratégico, atualmente uma das maiores empresas de design do Brasil. Ele fazia uma referência à inexistência de barreiras na avalanche de inovações e de criatividade que o mercado tem sofrido. Ele foi o primeiro a falar no segundo dia do 1o Congresso Brasileiro de Moda, realizado pelo I-Moda e organizado pelo IBModa no Parque Lage (Rio de Janeiro).
Junto com Ricardo Leite, também se apresentaram no painel que tinha como tema “O design como fator de diferenciação”, a estilista e consultora de moda Karlla Girotto e o designer de moda Felipe Caprestano.
A fala de Ricardo fez uma reflexão sobre a passagem de uma economia baseada nos preceitos da Revolução Industrial, que preconiza uma produção de cópias lineares, para uma outra, criativa, em que a demanda pelo novo está sempre presente. Nada escapa à sina da “novidade”. Nem o Mickey. “É assustadoramente maravilhoso ver como tudo se fossiliza com uma enorme rapidez. Essa permanente atualização das coisas muda o paradigma de todos os setores. A crise começou pelas gravadoras, que tiveram que se reinventar, depois os jornais, as editoras, as universidades… enfim, tudo está sendo ressignificado. O mundo está absurdamente criativo e nos cobra uma postura criativa, de devolver a este mesmo mundo inspiração e ideias novas”, disse Ricardo para uma plateia atenta às suas análises.
Depois de assistir à palestra de Ricardo, fica evidente que o novo “insumo” da época em que vivemos não são, no caso da moda, os produtos finais, isto é, a roupa, mas a criatividade. Os negócios, hoje, são movidos a ideias, e inovação é a palavra de ordem. Por outro lado, capturar a atenção é uma tarefa cada vez mais difícil, especialmente num mundo que vive de forma ata aguda a sua própria reinvenção.
O que todos queriam ouvir de Ricardo, foi respondido: como reagir a essa constante demanda por criatividade e inovação? Como as empresas podem se preparar para esse novo tempo? Uma das palavras-chave, segundo ele, é colaboração. A criação colaborativa tem mais chances de entregar respostas criativas para as questões impostas pelo mundo contemporâneo.
Nesse sentido, a fala de Felipe Caprestano, designer da Dalila Têxtil e responsável pelo blog Face Couture encaixou-se perfeitamente com essa proposta. Caprestano falou da bem-sucedida experiência colocada recentemente em prática na Dalila: o “coletivo criativo”. A ideia por trás dessa atitude corporativa é simples de se colocar em prática, mas nem por isso quer dizer que todas as empresas a empreguem. Na criação de uma coleção, todos os especialistas de diferentes áreas são chamados para dar suas contribuições, reflexões e propostas, o que gera, incontestavelmente, uma sinergia em torno da criação de um produto, o que economiza tempo e entrega para a indústria um produto de qualidade agregada.
“Os especialistas de cada área são convidados para o desenvolvimento da coleção sob uma coordenação coesa que dê uma identidade ao produto. Por isso é chamado de coletivo criativo. Às vezes, o cara que opera a máquina tem uma solução genial para melhorar o produto que ninguém das outras áreas poderia ser capaz de ter”, explicou.
Caprestano também comentou um movimento recentemente observado nas tecelagens do sul do país, um conhecido pólo da indústria têxtil. Nos últimos anos, para se fortalecerem, essas empresas se viram impelidas a buscar a inovação como um verdadeiro “insumo” para não perderem mercado.
Outra parte bastante potente de sua apresentação ficou por conta do trabalho pessoal desenvolvido por Caprestano, que cria máscaras-vestimentas a partir de técnicas da indústria da moda. Os vídeos produzidos para mostrar suas criações, feitos numa linguagem que alude ao sadomasoquismo, deixou a plateia desejosa de saber mais sobre suas produções e processos criativos. Para quem quiser checar, este é o endereço: www.facecoutureproject.com.
E foi justamente sobre processos criativos que Karlla Girotto falou em sua apresentação. A sistematização do processo de criação apresentado pela estilista parte do espanto em relação ao excesso de informações produzidas no mundo, que devem ser captadas, filtradas e trabalhadas. “Como devemos nos relacionar com um mundo que estimula a gente o tempo todo, buscando a intensidade da nossa sensorialidade? Fica difícil escolher um caminho. O tempo inteiro temos nossa atenção tentando ser captada”.
O caminho que leva à saída deste impasse é, para a estilista, uma questão que deve ser feita antes de qualquer ímpeto criativo: “O que te faz criar um objeto entre tantos já existentes?” Por que produzir, se for para uma mera reprodução de caminhos, propostas e ideias já existentes? O vigor criativo está naquilo que intrinsecamente nos sensibiliza, Aquilo que Karlla chama de “verdade” de intenção. Somente a “verdade” de intenção é capaz de produzir potência nos objetos.
As defesas dos três palestrantes se complementaram. Todos fizeram uma firme defesa da criatividade como elemento motor para o sucesso corporativo. O design, hoje, fala mais pela marca do que qualquer outro artifício. Como disse Ricardo, “o design é a inteligência da marca. Ele não é só o produto final”. E um dos caminhos para se atingir esse desejado design, essa desejada potência, como diria Karlla, é a co-criação, apontada por Ricardo como a nova ferramenta do futuro. Coisa que a Dalila Têxtil já entendeu e pratica.



